Carlos
Torres Pastorino foi um ex-padre que se dedicou ao estudo da Doutrina
Espírita e da fenomenologia mediúnica. Cursou o Seminário
em Roma, onde recebeu a tonsura (1929). Ordenou-se em 1934.
Em 1937, a recusa do Papa Pio XII em receber o Mahatma Gandhi em
seu traje habitual motivou-lhe o abandono da batina. De volta ao
Brasil iniciou sua atividade no magistério, contribuindo
ainda como correspondente em jornais. Adepto do Esperanto, converteu-se
ao Espiritismo em 1950, publicando extensa bibliografia de mais
de 50 obras, muitas delas ainda inéditas.
Seu livro Minutos de Sabedoria já ultrapassou a marca de
9 milhões de exemplares vendidos - tendo sido, por reincidência
em mais de dois anos consecutivos, retirado da lista elaborada pela
Revista "Veja", dos mais vendidos.
Grande inteligência, poliglota, Pastorino foi também
radialista, historiador, autor de peças de teatro e de composições
musicais e ainda traduziu livros em diversos idiomas, dentre eles
o volume O SISTEMA, de Pietro Ubaldi, no qual está inserido
um comentário do tradutor sobre a importância da Obra
e sua harmonia com o pensamento e a filosofia de Allan Kardec.
IMPRESSÃO
Terminada
a tradução da obra, O Sistema, de Pietro Ubaldi, feita
com a alegria imensa do garimpeiro que vai descobrindo em cada nova
linha uma pepita de ouro do mais puro, não me contenho em
rascunhar a impressão que me ficou dessa leitura meditada,
do estudo dessa revelação nova trazida a nós
em plena segunda metade do século XX.
Desde a infância, o estudo desses problemas, através
das obras da Teologia Católica, primeiramente, e mais tarde
através das publicações oficiais do Espiritismo,
do Protestantismo, da Teosofia, do Esoterismo, da Antroposofia,
dos Rosa-Cruzes, das obras mais antigas da Índia, do Egito
e da China, o estudo de tudo isto deu-me uma impressão de
incerteza e de tateamento, ou então de afirmativas sem bases
no campo racional. Não há, em todas essas doutrinas,
respeitabilíssimas sem dúvida, porque representam
o labor da mente concreta que busca o conhecimento através
de suas próprias forças – não há
uma unidade completa que una tudo numa única visão
de conjunto.
Por isso, através da leitura estudada e meditada da obra
de Ubaldi, cheguei à conclusão de que o universo é
de fato um todo único, cujo centro é Deus. E, completando
a maravilhosa e inspirada A Grande Síntese com o volume Deus
e Universo, vislumbrei certos aspectos novos. No entanto, o segundo
volume citado está demais conciso e alto, não me permitindo
à parca inteligência, a compreensão total da
grandiosidade ali exposta.
Neste volume, entretanto, a explicação é cabal
e acessível a todas as inteligências, mesmo as medianas,
como a de quem está escrevendo, e as provas são de
tal forma completas e irrespondíveis, que pouco haverá
que acrescentar a isso, nessa época. Talvez mais tarde se
possa dizer algo mais. Mas, no momento, não vemos o que acrescentar
ao que aqui se encontra.
O Sistema é um livro ótimo, lógico e claro.
Trata-se, em minha insignificante opinião, de completo curso
ou tratado de Teologia cosmogônica, uma Teologia Nova, que
vem cortar pela raiz todas as elucubrações puramente
humanas, esclarecendo os pontos obscuros, revelando todos os mistérios
incompreensíveis e inaceitáveis à mente hodierna.
As teologias antigas, que pararam no tempo e no espaço, por
se terem tornado dogmáticas e não mais admitirem pesquisas,
reagirão, sem dúvida, a esta intromissão em
seu terreno. Mas a humanidade está em evolução
perene, e não seria compreensível que a parte mais
nobre e elevada da humanidade, que é o pensamento e a sabedoria,
parassem nos séculos remotos, enquanto a parte inferior,
material, estivesse, como está, progredindo a passos gigantescos.
Neste Tratado Teológico, encontramos um Deus perfeitamente
aceitável por Sua grandeza, ao invés daquele Deus
mesquinho que trazia sempre bombons na mão direita para premiar
e um chicote na esquerda para castigar, como qualquer capataz irritadiço
e vulgar. Revela-nos uma finalidade à existência, ao
invés de um paraíso de ociosidade inútil e
egoísta, em que as criaturas ficarão por toda a eternidade
gozando ao ver seus entes queridos sofrendo horrorosamente um inferno
infindável.
A teoria da queda e da reabilitação dos espíritos
é tão lógica que temos a impressão que
ela guiará o mundo espiritualizado de amanhã, esclarecendo
os pontos obscuros e dando direção à evolução
da humanidade, que hoje se debate em problemas sem solução.
É um Tratado de Teologia nova e ao mesmo tempo um Tratado
de Filosofia Universalista Unitária, que nos apresenta, como
um todo único, um só corpo cuja cabeça é
Cristo.
A segurança de raciocínio jamais abandona o autor
a especulações vazias, mas o leva a provas sólidas,
em matéria difícil e complexa. É a única
teoria que conhecemos, que pode satisfazer o intelecto, a razão
e mesmo o coração, porque explica logicamente tudo
o que se passa neste mundo. Filosofia, física, química,
biologia, sociologia, moral, tudo é examinado conscienciosamente,
com minúcias que esgotam o assunto, com inflexibilidade irrespondível,
com segurança e acerto.
A parte mais alta do livro O Sistema é constituída
pelo capítulo XX, quando o autor nos dá a terceira
interpretação da visão. Esta é de uma
clareza deslumbrante. Inegavelmente trata-se, nesta obra, de uma
revelação descida do Alto, que nos vem trazer luz
acerca de problemas que a mente humana, por si só não
poderia resolver.
Perguntam-me alguns confrades, como posso aceitar a teoria
de Pietro Ubaldi, sendo, como sou, espírita adepto de Allan
Kardec. Confesso não ver nenhuma contradição
entre as duas teorias.
Para quem lê Kardec superficialmente, detendo-se nas palavras
impressas, a teoria de Pietro Ubaldi pode parecer "herética".
Mas aos que lêem o mestre penetrando as entrelinhas das respostas
dos espíritos, tão sábias e profundas, nada
lhes parece de contráditório.
Em primeiro lugar, Allan Kardec tentou penetrar nesse terreno. Todavia
os espíritos não lhe deram a resposta ansiada. Podemos
encontrar no Livro dos Espíritos a pergunta 39: "Podemos
conhecer o modo de formação dos mundos"? E a
resposta dos espíritos: "Tudo o que a esse respeito
se pode dizer e podeis compreender é que os mundos se formam
pela condensação da matéria disseminada no
espaço". Não é o que diz Pietro Ubaldi,
no capítulo XX? A origem dos universos foi uma "contração",
em que o espírito ficou aprisionado dentro da matéria.
Em segundo lugar, o próprio Kardec afirma não ter
dito a última palavra, mas apenas a primeira. E que todas
as teorias por ele trazidas deveriam ser desenvolvidas à
proporção que a ciência progredisse.
Em terceiro lugar, Allan Kardec preocupa-se com o problema da evolução,
a partir da matéria primitiva, sem cogitar do que havia ocorrido
antes. Ou seja, começa do mesmo modo em que a Bíblia
e do mesmo ponto em que A Grande Síntese iniciaram o estudo:
a subida evolutiva dos seres encarnados. Evidentemente, partiram
todos da "matéria", ou seja, dos átomos,
cuja concentração formou os universos. Nesse ponto
– o infinito negativo, o ponto de chegada da involução,
a concentração máxima do espírito –
era evidente que "todos os espíritos eram simples e
ignorantes" (pergunta 115). Entretanto, é evidente a
confusão da palavra "espírito", no sentido
de "princípio espiritual" com o sentido de espírito
humano. Mas as próprias respostas dos espíritos e
Allan Kardec classificam a origem, pesquisada agora por Pietro Ubaldi,
como "mistério": "a origem deles é
mistério" (Pergunta 81). E pouco antes: "Quanto
ao modo pelo qual nos criou e em que momento o fez, nada sabemos"
(Pergunta 78).
Dentro do próprio Livro dos Espíritos, contudo, encontramos
em esboço muito rápido e leves pinceladas, a confirmação
da teoria ubaldiana. Pergunta Kardec: "Donde vieram para a
Terra os seres vivos"? Resposta: "A Terra lhes continha
os germes, que aguardavam momento favorável para se desenvolverem.
Os princípios orgânicos se congregaram (teoria das
"unidades coletivas"), desde que cessou a atuação
da força que os mantinha afastados" (Pergunta 44). Não
é o que diz Pietro Ubaldi?
Mas, acima de tudo, está de pé a resposta à
pergunta 540, no fim: "É assim que tudo serve, tudo
se encadeia na natureza, desde o átomo primitivo até
o arcanjo, que também começou por ser átomo.
Admirável lei de harmonia, que vosso acanhado espírito
ainda não pode apreender em seu conjunto!"
Nada mais cremos seja precioso para provar que a teoria exposta
por Pietro Ubaldi, em sua revelação, nada tem de contraditório
com a doutrina codificada por Allan Kardec. Antes, vem completá-la
e explicá-la, levantando o véu daquele mistério
que, há um século, os espíritos julgaram oportuno
deixar ainda envolvendo a origem da vida. E isto porque os homens
daquela época "ainda não podiam entender"
essa origem, pois a ciência não havia demonstrado que
matéria é apenas a condensação da energia,
e esta a descida das vibrações do espírito.
A frase final da resposta à pergunta nº 83 nos revela
bem que Allan Kardec, incontestável mestre codificador, não
pôde receber dos espíritos uma doutrina completa, porque
o ambiente terrestre ainda não estava preparado. Lemos aí:
"É tudo o que podemos, por agora, dizer". Então,
há mais coisas a dizer, mas não podiam ser ditas,
tal como ocorreu quando Jesus disse a seus apóstolos: "Muitas
coisas vos tenho a dizer, mas não as podeis suportar agora"
(João, 16:12). Por que então condenaremos a teoria
de Pietro Ubaldi, se ela sem contradizer nem Kardec, nem Jesus,
vem trazer-nos luz a respeito de coisas que nem um nem outro nas
haviam revelado?
O fato concreto, sob nossa vista, é que a teoria exposta
mediante revelação e inspiração por
Pietro Ubaldi satisfaz integralmente a todas as indagações
científicas, psíquicas, filosóficas, teológicas
e espirituais que possamos fazer-nos. Assim sendo, temos que lealmente
aceitá-la, até prova em contrário; mas prova
que traga argumentos e fatos, experimentações e demonstrações,
e não apenas citações do "magister dixit".
Hoje o método científico tem de prevalecer para satisfazer
tanto à mente concreta quanto à abstrata, tanto à
razão quanto à intuição, tanto à
inteligência quanto à sensibilidade.
A obra é de suma importância e finca no mundo um marco
que dificilmente será removido. Poderá ser mais bem
explicado e desenvolvido seu ponto de vista, poderá mesmo
ser modificado em seus aspectos secundários. Mas o âmago
do problema foi equacionado brilhantemente, e daí poderemos
partir para posteriores e maiores pesquisas e buscas.
Compete agora ao homem de amanhã essa parte. Mas este já
encontrará uma base onde se apoiar, um alicerce sobre o qual
poderá erguer novos edifícios. E era isto, justamente,
o que faltava à humanidade de hoje, que nada podia edificar
em terrenos movediços de mistérios, sobre abismos
sem fundo de desconhecimentos confessados. Tudo, dentro da relatividade
humana, foi explicado em termos científicos e lógicos.
Foi-nos mostrado, com dificuldade por causa da pobreza da linguagem
humana, o que a mente do homem perquiria há milênios,
e que nos fora dito várias vezes, mas sempre com palavras
ocultas, cheias de subentendimentos, que a mente comum não
conseguia penetrar.
Para a filosofia e a teologia, este volume constitui um dos mais
importantes tratados que já apareceram publicados na face
da Terra. É uma luz nova que se levanta no horizonte, um
novo sol que vem iluminar as mentes e aquecer os corações,
sequiosos de sabedoria e de amor. Porque nele se revelam, em Sua
plenitude infinita, a Sabedoria e o Amor de Deus, como centro de
tudo, como Seu pensamento a constituir atmosfera psíquica
"em que vivemos, nos movemos e existimos (…) porque Dele
também somos gerados" (Atos, 17:28)
Rio,
5 de Julho de 1957
C. Torres Pastorino
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